Atuei na assistência à população em situação de rua, numa instituição evangélica no centro de São Paulo. Atendíamos as pessoas duas vezes por semana, oferecendo uma refeição, banho e roupa. A mesma instituição mantinha (e ainda mantém) uma fazenda e uma casa-família para reabilitar estas pessoas em situação de rua e dependentes químicos. Eu ainda tinha uma visão romantizada dos moradores de rua, mas, especificamente, aquele grupo que nós atendíamos não tava muito interessado em sair da rua. Nem mesmo em nos tratar minimamente bem. Muitas pessoas queriam apenas tirar proveito do nosso trabalho e tinham suas próprias táticas para isso. O nosso grande desafio era continuar respeitando a dignidade humana daquelas pessoas e tratá-las bem independente de qualquer coisa. Não era incomum ouvir xingamentos ou gritaria das pessoas em situação de rua por falta de roupas ou porque não gostaram da refeição etc. No final da tarde lavávamos tudo, sendo que alguns banheiros tinham até fezes no chão.
Lembro de tudo isso no momento em que meu namoro chega ao fim. Aquilo que eu mais temia aconteceu e, por algum tempo, não quis acreditar. Veio à tona aquele pesar utilitarista: "tantos anos de dedicação para nada?". No início do namoro fui relutante, mas depois fui deixando de lado este temor. Arrisquei demais e de forma inconsequente, sem tentar medir ou prever as consequências, os possíveis benefícios ou prejuízos em questão - se é que isso seja possível. Nossos caminhos tomaram rumos diferentes e quando dei conta disso o baque foi grande.
Estamos destinados a amar. Esta é a nossa sina. Uma vida cheia de erros e decepções, mas cheia de amor que só é possível com o perdão. Não estamos num mundo perfeito, apenas num mundo onde amar é possível. Os relacionamentos supõem decepções, mas nem por isso abdicaremos deles. Vale a pena dar atenção aos outros de forma gratuita e despretensiosa. Vale a pena entrar num relacionamento de forma inconsequente. Vale a pena perder tempo com coisas "inúteis" ou nem tanto, com pessoas consideradas "insignificantes" e em momentos supostamente "banais". O arrependimento muitas vezes é inevitável. Depois de algum tempo podemos até rir das nossas próprias desgraças. Sabendo que vale a pena amar.
As passagens que eu mais gosto nos evangelhos são aquelas em que Jesus perdoa pecados diante de escribas e fariseus. E encontramos a recorrente frase: "Quem é este homem que chega a perdoar os pecados?". Lembro de uma música do Jorge Camargo que diz: "em ter misericórdia reside o seu prazer, em perdoar pecados a sua vocação, e em lançar mazelas no mar do esquecimento". Ainda bem que ele já esqueceu que muitas vezes nos recusamos a amar, esqueceu que muitas vezes negamos a nossa vocação.



3 comentários:
As vezes me considero "bobo" demais por amar muito. Sofrí muito no fim de um relacionamento, chegando a fazer tratamento com medicamentos. Amo demais as pessoas, e as pessoas nos frustram...
Por isso acho que vivo o Cristianismo, pois é amor. Jesus sentiu na carne todo o sofrimento de mundo, e ainda nos alertou que teriamos aflições.
Belo texto Silas. Lamento pelo teu namoro, mas enfim, além de tudo que disseste, vale também o crescimento e amadurecimento vividos no processo.
Grande abraço!
se encaixa bem com o texto
http://www.youtube.com/watch?v=TrLfVpu0esA
''love is all that you can't leave behind ''
já cantava o querido Bono em WalK On (uma das minhas favoritas do U2)
será minha próxima tattoo :)
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