Junho 03, 2011

As semelhanças entre o cristianismo e outras crenças consideradas pagãs

HARPUR, Tom. O Cristo dos pagãos: a sabedoria antiga e o significado espiritual da Bíblia e da história de Jesus. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2008, 240pp.

Diversos argumentos foram levantados, no livro O Cristo dos pagãos: a sabedoria antiga e o significado espiritual da Bíblia e da história de Jesus (Harpur, 2008), sobre a semelhança entre o cristianismo e outras crenças “pagãs”. Os cristãos primitivos supostamente teriam adotado verdades antigas dessas crenças “pagãs” como os próprios dogmas do cristianismo, mas a Igreja cristã posteriormente repudiou as suas origens. Também foram evocadas as pesquisas de Godfrey Higgins (1771-1834), Gerald Massey (1828-1907) e Alvin Boyd Kuhn (1880-1963) – que, até então, desconhecíamos. O autor, Tom Harpur, é colunista do jornal canadense Toronto Star, acadêmico de Rhodes e ex-pastor anglicano, além de professor de grego e Novo Testamento na University of Toronto.

O livro é dividido em dez capítulos. No primeiro capítulo, intitulado Descoberta: uma história bíblica de que eu nunca tinha ouvido falar (pp. 15-27), o autor defende a idéia de que a Igreja cristã cometeu um “erro fatal” supostamente adotando uma perspectiva literalista da Bíblia:

“a Igreja adotou uma perspectiva literalista, populista, histórica, em relação à verdade sublime. O que havia sido preservado no âmbar da alegoria, ela representou falsamente como fato consumado.” (pp. 16-17)

E, em seguida, o autor defende a idéia da semelhança entre o cristianismo e outras crenças “pagãs” que, por sua vez, é desprezada por muitos cristãos:

“As semelhanças existentes entre as crenças cristãs e as primeiras religiões pagãs sempre eram rapidamente desprezadas no seminário como ‘prefigurações’ da Boa Nova proclamada pelo Novo Testamento.” (p. 19)

“Vou documentar claramente que não há nada do que o Jesus dos Evangelhos alguma vez disse ou fez – desde o Sermão da Montanha até os milagres, desde a fuga de Herodes quando bebê até a própria Ressurreição – que não possa ser mostrado como tendo se originado milhares de anos antes, nos ritos de mistérios egípcios e em outras liturgias sagradas, como o Livro dos Mortos egípcio.” (p. 24)

No segundo capítulo, intitulado Montando o cenário: mitos não são contos de fadas (pp. 29-39), o autor destaca o suposto verdadeiro significado do mito, já que, segundo ele, toda a história de Jesus é um mito ou uma coleção deles:

“as verdades mais profundas sobre a vida, a alma, o sentido pessoal, o nosso lugar no universo, a nossa luta para galgar níveis superiores de percepção e compreensão, e especialmente o mistério do que chamamos Deus, podem ser explicadas apenas por meio de uma narrativa (mythos) ou de um ritual dramático.” (p. 31)

“o divino, o oculto, o inefável, as obras do espírito no coração humano ou no cosmos em geral não podem ser expressos convenientemente de outra maneira a não ser pelo mito, pela alegoria, por um conjunto de imagens, parábolas e metáforas. Uma narrativa literal, descritiva, leva inevitavelmente à idolatria ou ao extremo absurdo.” (p. 32)

No terceiro capítulo, intitulado O cristianismo antes do cristianismo: como tudo começou (pp. 41-60), o autor destaca diversas evidências da semelhança entre o cristianismo e outras crenças. Por exemplo, segundo o autor,

“a encarnação – a presença de Deus ou essência divina no ser humano, todo ser humano – é o ensinamento essencial de todos os sistemas de crenças em todos os lugares.” (p. 48)

E apresenta aquela que supostamente seria a única diferença entre o cristianismo e os mitos antigos:

“A única e decisiva diferença entre os mitos antigos e a religião cristã é que a religião cristã terminou por concentrar esse conceito universal [da encarnação] em uma pessoa histórica isolada.” (p. 50)

No quarto capítulo, intitulado O maior encobrimento de todos os tempos: como uma religião cristã espiritual tornou-se um cristianismo literalista (pp. 61-76), o autor defende que, apesar das origens pagãs, no século IV, o cristianismo virou as costas ao paganismo.

No quinto capítulo, intitulado Já estava tudo escrito antes... no Egito (pp. 77-99), o autor defende que a idéia do monoteísmo (p. 78) já estava presente no Egito. E mesmo os textos dos evangelhos teriam alguma correspondência com textos egípcios anteriores:

“[Gerald] Massey descobriu aproximadamente duzentos exemplos de correspondência imediata entre o material mítico egípcio e os textos alegadamente históricos sobre Jesus. Na realidade, Hórus foi o arquétipo do Cristo pagão.” (p. 94)

“o cristianismo na sua ortodoxia final foi simplesmente uma reedição de um conhecimento antigo em um formato literalizado e altamente exclusivista.” (p. 94)

No sexto capítulo, intitulado Convencendo os céticos (pp. 101-122), o autor continua apresentando as semelhanças entre as palavras e milagres de Hórus e as do Jesus dos evangelhos:

“os milagres atribuídos a Jesus nos Evangelhos haviam sido todos realizados anteriormente pelo deus pré-cristão Iusa/Hórus, o curandeiro divino que era obviamente não histórico.” (p. 108)

“Jesus não foi a única pessoa divina que ofereceu o seu corpo e o seu sangue simbolicamente para o alimento dos mortais. [Gerald] Massey afirma que Hórus ‘também deu a sua carne como alimento e o seu sangue como bebida’.” (p. 118)

No sétimo capítulo, intitulado A Bíblia – história ou mito?: o fim do fundamentalismo (pp. 123-143), o autor defende que os relatos bíblicos são totalmente alegóricos e míticos:

“o que precisamos hoje em dia não é uma nova racionalização e demitologização dos relatos bíblicos, mas, sim, de uma remitologização deles no sentido de ver a sua importância eterna como nunca vimos antes. A necessidade não é de desvestir o mito, conforme cheguei a pensar, mas de usá-lo para penetrar no cerne espiritual do que ele sempre esteve tentando nos dizer.” (p. 143)

No oitavo capítulo, intitulado Olhando os evangelhos com outros olhos: mito sublime não é biografia (pp. 145-164), o autor defende que os evangelhos não dizem respeito a um Jesus histórico, mas somente ao Cristo interior presente em cada um de nós.

“[Os evangelhos] Eram coleções de aforismos egípcios, hebraicos e gnósticos, e portanto não podem ser interpretados por si mesmos como prova de que o Jesus dos Evangelhos tenha vivido como um homem ou mestre.” (p. 148)

“a narrativa acerca de Jesus é a narrativa sobre cada um de nós em forma alegórica. Como animais dotados de espírito, somos crucificados na cruz da matéria; somos os portadores do Cristo interior e um dia ressuscitaremos para um destino glorioso ao lado de Deus. Toda alma é crucificada na cruz quando vive no corpo físico, de acordo com a antiga sabedoria esotérica.” (p. 155)

No nono capítulo, intitulado Existiu um Jesus na história? (pp. 165-184), o autor defende que Jesus era imaterial no primeiro século e tornou-se uma pessoa só depois de vários séculos. E defende que

“um cristianismo que incorpore e proclame um Khristós espiritual, ou Jesus Cristo, ao alcance de todos os corações guardará outra vez o dinamismo intelectual e moral vivenciado inicialmente por São Paulo e pelos outros primeiros cristãos.” (p. 184)

No último capítulo, intitulado O único caminho a seguir: um cristianismo cósmico (pp. 185-201), o autor defende que uma compreensão mais espiritual do Cristo e do cristianismo teria livrado a humanidade de perseguições, guerras e outras atrocidades cometidas pela Igreja.

Não acreditamos numa suposta pureza do cristianismo primitivo defendida por alguns teólogos (cf. Viola, 2003). Por isso, reconhecemos a importância de mostrar as semelhanças entre o cristianismo e outras crenças consideradas pagãs. Mas buscar uma síntese entre o cristianismo e outras crenças – se é que isto seja possível – não é, ao nosso ver, o melhor caminho para a tolerância, do que o reconhecimento das diferenças. Na busca afoita por esta síntese o autor esqueceu que a fé cristã não restringe-se a ortodoxia e sua leitura literalista.

Referências bibliográficas

VIOLA, F. (2003), Pagan Christianity: The Origins Of Our Modern Church Practices [Cristianismo pagão: origens das práticas de nossa igreja moderna]. Present Testimony Ministry [Traduzido por Railton de Sousa Guedes].

* Agradecemos a editora Pensamento-Cultrix pelo envio do livro O Cristo dos pagãos: a sabedoria antiga e o significado espiritual da Bíblia e da história de Jesus, lançado em 2008.

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