Maio 23, 2011

Por um cristianismo mais humano e menos institucional

TOLSTÓI, Liev. O reino de Deus está em vós. Tradução de Celina Portocarrero. Rio de Janeiro: BestBolso, 2011, 335pp.

Nos últimos anos, tivemos uma enxurrada de publicações das obras de Tolstói em português (cf. Tolstói, 2005; 2006; 2007a; 2007b; 2007c; 2009a; 2009b; 2009c; 2010a; 2010b; 2010c; 2010d; 2010e; 2011a; 2011b; entre outros), sendo que a maioria das traduções indicadas foi feita diretamente do russo.

Liev Tolstói (1828-1910) foi um grande romancista russo, internacionalmente conhecido pelos clássicos Guerra e Paz (Tolstói, 2007a) e Anna Karienina (Tolstói, 2009a). Foi rico, um filho da aristocracia, e casou-se com Sófia Sônia Andrêievna Bers (1844-1919), com quem permaneceu casado por 48 anos e teve 13 filhos. No final de sua vida, ele tornou-se pacifista e escreveu textos questionando a autoridade das igrejas, dos governos e a noção de propriedade privada – textos como: O reino de Deus está em vós, de 1893 que, recentemente, recebeu esta nova edição (Tolstói, 2011a). Recentemente, foi lançado o livro Os últimos dias de Tolstói (Tolstói, 2011b) que apresenta cartas, discursos e ensaios elaborados, entre 1882 e 1910, pelo célebre autor russo. Nas palavras de Tolstói:

As pessoas vivem num luxo absurdo, enriquecendo-se com o trabalho de pobres humilhados e protegendo a própria riqueza com guardas, juízes, sentenças - e o clero, em nome de Cristo, aprova, consagra e abençoa essa vida, apenas aconselhando os ricos a conceder uma pequena parte do que foi roubado àquele de quem continuam roubando. (Tolstói apud Lucena, 2011)

Tentamos ler novamente o livro O reino de Deus está em vós (ou O cristianismo apresentado não como uma doutrina mística mas como uma moral nova) (Tolstói, 2011a), desta vez sem levar em conta algumas idéias que consideramos refutáveis. Não temos a intenção de desqualificar a obra de Tolstói, muito menos deixar de reconhecer suas inegáveis e radicais contribuições. Sabemos que é recorrente o fato de muitos cristãos classificarem Tolstói como deísta – mesmo que isto já não faça muito sentido – e a partir desta chave de leitura desqualificarem tudo o que partiu de sua pena. O próprio Tolstói reconheceu isto no livro: “censuraram-me pela interpretação errada de uma ou outra passagem da Bíblia; porque não reconheço a Trindade, a Redenção e a imortalidade da alma” (p. 39).

Duvidamos da possibilidade, supostamente enunciada por Tolstói, do ser humano alcançar a Verdade plenamente ou assimilar o cristianismo de forma pura. Admitimos que sua obra está impregnada com a idéia de progresso, própria de sua época. São muitas as referências a um suposto “desenvolvimento” ou “progresso da consciência”, “progresso da humanidade” (cf. pp. 90, 105, 111-112, 116, 119, 132, 170, 183, 204, 226, 233, 247, 248, 252, 298, 319, 322-324) – evidente no exemplo dos cavalos atrelados a uma carroça (cf. p. 323) – que, após o nazismo e outras experiências desastrosas dos séculos XX e XXI, tornou-se insustentável. Mas em outros momentos da obra, Tolstói parece negar este “progresso”. E o fato desta obra ter despertado Mahatma Gandhi e diversos movimentos para o princípio da não-violência, já é suficiente prova de sua relevância.

No capítulo 1, intitulado A doutrina da não resistência ao mal por meio da violência tem sido ensinada pela minoria dos homens desde a origem do cristianismo (pp. 9-37), o autor resgata o pacifismo presente no cristianismo através dos quakers, de William Lloyd Garrison, Adin Ballou, Kheltchitsky, Dymond, e Daniel Musser, apesar da suposta decadência do cristianismo desde Constantino.

No capítulo 2, intitulado Opiniões dos fiéis e dos livres-pensadores sobre a não resistência ao mal por meio da violência (pp. 38-54), Tolstói apresenta o questionamento central da obra:

como conciliar a doutrina claramente expressa pelo Senhor e contida no coração de cada um de nós – perdão, humildade, paciência, amor a todos, amigos ou inimigos – com a exigência da guerra e de sua violência contra os nossos compatriotas e contra os estrangeiros? (p. 39)

Sendo que, para Tolstói, a única justificativa para usar a violência seria contra o Mal absoluto. Em suas palavras: “ou encontrar um critério verdadeiro, indiscutível, do que se chama mal, ou não resistir ao mal com o mal” (p. 54). Na impossibilidade de defenir ou reconhecer o Mal, simplesmente não usar a violência. Mais adiante ele escreveu: “É absolutamente necessário, a cada nova luta, decidir se devemos ou não nos opor violentamente àquilo que consideraremos o mal” (p. 185).

No capítulo 3, intitulado O cristianismo mal compreendido pelos fiéis (pp. 55-86), Tolstói apresenta sua desqualificação da Igreja:

tudo foi feito para que o homem não creia mais em Deus, nem em Cristo tal como eles se revelaram, mas somente no que a Igreja ordena que se acredite. (p. 62)

As Igrejas, enquanto Igrejas, como sociedades afirmadoras de sua infalibilidade, são instituições anticristãs. Não só nada existe em comum entre as Igrejas e o cristianismo, exceto o nome, como seus princípios são absolutamente opostos e hostis. (p. 72)

O que as Igrejas fazem dos homens é terrível, mas ao examinar bem a situação reconhece-se que não podem agir de outra maneira. (p. 85)

O cristianismo, para Tolstói, não pertence a Igreja ou qualquer instituição, mas a toda humanidade.

No capítulo 4, intitulado O cristianismo mal compreendido pelos cientistas (pp. 86-108), Tolstói defende a idéia de que a essência do cristianismo não está na mística nem mesmo em regras prescritas e supostamente impraticáveis ou doutrina abstrata, mas sim numa ação profética e no amor a Deus – “no movimento do eu em direção a Deus” (p. 100). No capítulo 5, intitulado Contradições entre nossa vida e a consciência cristã (pp. 108-131), Tolstói também defende que o cristianismo é essencialmente profético e exige mudança de vida, uma nova moral.

No capítulo 6, intitulado Os homens de nossa sociedade e a guerra (pp. 132-166), Tolstói destila sua crítica aos “doutos juristas” que, segundo ele, “afirmam em seus livros que o governo não é o que é: uma reunião de homens que exploram os outros, mas, segundo a ciência, a representação do conjunto de cidadãos” (p. 148). E recusa qualquer legitimação à guerra.

No capítulo 7, intitulado Significado do serviço militar obrigatório (pp. 166-182), Tolstói defendeu que o serviço militar obrigatório é a principal contradição para os cristãos. Para ele, o rosto violento do Estado aparece na instituição do exército:

Acredita-se, em geral, que os governos aumentam os exércitos unicamente para a defesa externa do país, enquanto, na realidade, os exércitos lhes são necessários, principalmente, para sua própria defesa contra os súditos oprimidos e reduzidos à escravidão. (p. 173)

No capítulo 8, intitulado Aceitação inevitável pelos homens de nossa sociedade da doutrina da não resistência ao mal (pp. 183-203), assim como nos posteriores, através da defesa da não-violência há uma desqualificação de qualquer Estado, supostamente contrários ao cristianismo:

A doutrina de Cristo não é uma jurisprudência que ao ser imposta pela violência pode modificar de imediato a vida dos homens. É um novo conceito de vida, mais alto do que o antigo, e um novo conceito de vida não pode ser prescrito, precisa ser livremente assimilado. E só pode ser livremente assimilado de duas maneiras: uma interna, espiritual, e a outra externa, experimental. (p. 183)

No capítulo 9, intitulado A aceitação do conceito cristão da vida preserva os homens dos males de nossa vida pagã (pp. 203-224), Tolstói continua sua desqualificação de qualquer Estado: “A promessa de submissão a qualquer governo... é a negação absoluta do cristianismo” (p. 205). E utiliza o exemplo das abelhas para propor a desobediência civil:

Se nenhuma abelha levantasse voo sem esperar pelas outras, o enxame nunca mudaria de lugar, e se o homem que assimilou o conceito cristão não vivesse segundo este conceito, a humanidade nunca mudaria sua situação. (p. 207)

São as abelhas isoladas, primeiro desprendidas do enxame, que volteiam a seu redor, esperando o que não pode tardar: que todo o enxame pouco a pouco se desprenda. (p. 213)

No capítulo 10, intitulado Inutilidade da violência governamental para suprimir o mal – O progresso moral da humanidade realiza-se não apenas com o conhecimento da verdade, mas também com a formação da opinião pública (pp. 224-247), Tolstói direciona sua crítica ao sistema judiciário, que supostamente funciona como legitimador da violência do Estado. E utiliza o exemplo dos pintinhos para afirmar que o Estado supostamente será destruído por uma sociedade civil madura com uma “opinião pública” bem diferente da atual:

Os pintinhos já estão bastante desenvolvidos para que a galinha seja afastada e para que se deixe que saiam do ovo, ou ainda é muito cedo? Decidirão eles mesmos a questão quando, não mais podendo continuar dentro da casca, irão quebrá-la com o bico. (p. 226)

No capítulo 11, intitulado O conceito cristão da vida nasce em nossa sociedade e infalivelmente destrói a ordem de nossa vida calcada na violência (pp. 247-259), Tolstói indica alguns sinais do reino de Deus ou do “progresso”.

E no último capítulo, intitulado Conclusão – Fazei penitência, porque o reino de Deus está próximo, está à nossa porta (pp. 259-335), Tolstói não propõe um sistema, mas convoca todos a uma mudança de vida, uma espécie de sensibilização à re-humanização dos indivíduos:

se fosse sugerido ao hipnotizado que é coxo e ele começasse a mancar, que é cego e ele não mais enxergasse, que é uma fera e ele começasse a morder, na mesma posição estão todos aqueles que cumprem seus deveres sociais e governamentais antes e em detrimento dos deveres humanos. (p. 297)

Na obra de Tolstói está presente a idéia de que enquanto um ser humano sofre, toda a humanidade está sofrendo. E destacamos que Tolstói enunciou, no segundo e no último capítulos, que uma leitura sacrificialista da morte de Jesus legitimava, e acreditamos que continua legitimando, toda sorte de crueldades:

para o bem-estar geral pode-se matar, violentar, assaltar. “É melhor que um só homem pereça do que um povo inteiro”, dizes como Caifás e subscreves a condenação à morte de um homem, de outro, de um terceiro; carregas teu fuzil contra aquele homem que deve perecer pelo bem geral, o colocas na prisão, lhe retiras tudo o que possui. Dizes que cometes essas crueldades porque fazes parte da sociedade, do Estado, porque tens o dever de servi-los, e, como proprietário, juiz, soberano, soldado, deves agir conforme suas leis. (p. 332)

Referências bibliográficas

LUCENA, E. (2011), Tolstói ataca ricos e igreja em textos finais: 'Os últimos dias' apresenta cartas, discursos e ensaios elaborados entre 1882 e 1910 pelo célebre autor russo. In: Folha de São Paulo, 9 de abril de 2011, p. E8.

SCHNAIDERMAN, B. (1983), Leão Tolstói: antiarte e rebeldia. São Paulo: Brasiliense.

TOLSTÓI, L. (1994) [1893], O reino de Deus está em vós. Tradução de Celina Portocarrero. 2. ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.

_____. (2005), Pensamentos Para Uma Vida Feliz. Tradução de Bárbara Heliodora. Rio de Janeiro: Ediouro.

_____. (2006) [1886], A Morte De Ivan Ilitch. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34.

_____. (2007a) [1869], Guerra e paz. 4 volumes. Porto Alegre: L&PM.

_____. (2007b), Histórias De Bulka. Tradução de Tatiana Belinky. São Paulo: Editora 34.

_____. (2007c) [1887-89], A Sonata a Kreutzer. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34.

_____. (2009a) [1873-77], Anna Karienina. Tradução de Rubens Figueiredo. 2. ed. São Paulo: Cosac Naify.

_____. (2009b) [1859], Felicidade Conjugal. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34.

_____. (2009c), Fábulas. Tradução de Ana Maria e Tatiana Mariz. São Paulo: Companhia das Letrinhas.

_____. (2010a) [1889-90], O diabo e outras histórias. Tradução de Beatriz Morabito. 2. ed. São Paulo: Cosac Naify.

_____. (2010b) [1889-99], Padre Sergio. Tradução de Beatriz Morabito. 2. ed. São Paulo: Cosac Naify.

_____. (2010c) [1899], Ressurreição. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac Naify.

_____. (2010d) [1894-1905], Khadji-Murat. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Cosac Naify.

_____. (2010e), A insubmissão e outros escritos. Organizado e traduzido por Plínio Augusto Coêlho. São Paulo: Ateliê Editorial; Imaginário.

_____. (2011a) [1893], O reino de Deus está em vós. Tradução de Celina Portocarrero. Rio de Janeiro: BestBolso.

_____. (2011b) [1882-1910], Os últimos dias de Tolstói. Organização de Elena Vassina. São Paulo: Penguin; Companhia das Letras.

3 comentários:

Dançando no cosmos! disse...

Esse livro é fantástico.Lí um tempo atrás e pretendo ler de novo, com mais calma e estudando-o; vale a pena.

Tolstoí nos apresenta um Cristianismo real, sem malabarismos intelectuais e rituais alienantes.

Anônimo disse...

Fiquei encantada pelas idéias de Tolstói.
Ler esse artigo me faz ter vontade de ler o livro, mas não sei se a leitura
seria muito pesada e lenta para mim!
Apesar de qualquer coisa, o artigo ficou muito bom, baby :)
Tolstói fala sobre uma perspectiva bem diferente da qual estamos acostumados e eu antes até tinha um pouco de receio das idéias dele, mas na verdade, as coisas ditas nesse livro comentado por você,são bem simples e profundas.
Obrigada!


Gabi

Preso por fora disse...

Esperei avdidamente por este livro... li uma biografia de Gandhi e fiquei curioso sobre um dos livros que tanto o influenciou. Estou no Cap. 6. Também já tratei de comprar "Desobediência Civil" do Thoreau, e "Gandhi, por ele mesmo"... apesar do Gandhi não ser anarquista tenho minhas admirações.