
CARVALHO, G. V. R.; CUNHA, M. J. S.; LEITE, C. A. C. (org.) (2006), Cosmovisão cristã e transformação: espiritualidade, razão e ordem social. Viçosa: Ultimato, 298pp.
A decepção é inevitável após a leitura do livro Cosmovisão cristã e transformação: espiritualidade, razão e ordem social. Talvez porque nutrimos algumas expectativas com relação a uma ala do evangelicalismo brasileiro, aquela que parecia mais progressista ligada a chamada Missão Integral - esperávamos algo além do "centrismo cristão" (p. 216). Os autores limitaram-se apenas a buscar aproximações entre o velho neocalvinismo holandês e a Teologia da Missão Integral, mas não houve um resgate da caminhada dessa segunda.
O livro é composto por nove textos de diferentes autores. Todos os textos remetem aos holandeses Abraham Kuyper (1837-1920) e Herman Dooyeweerd (1894-1977), e ao norte-americano Nicholas Wolterstorff (1932-). Quase nada sobre a Missão Integral aqui na América Latina, sobre teólogos brasileiros e nem mesmo sobre o pensamento do teólogo Carlos René Padilla.
No primeiro texto, Evangélicos ou Evangelicos?: a igreja brasileira entre os exemplos do passado e o dilema presente (pp. 19-37), os autores Cláudio Antônio Cardoso Leite e Fernando Antônio Cardoso Leite buscam inspiração em duas fontes: a primeira que eles intitulam genericamente de "a igreja primitiva" e a Reforma Protestante. No segundo texto, Cosmovisão: evolução do conceito e aplicação cristã (pp. 39-55), o autor Rodolfo Amorim Carlos de Souza parece simplificar demais diversas correntes filosóficas e movimentos teológicos, tudo em nome de uma suposta exaltação da tríade bíblica: criação-queda-redenção.
São tantas as nossas ressalvas que não merecem serem citadas aqui nessa resenha. Citarei apenas os outros textos e seus respectivos autores. O terceiro texto é intitulado Cosmovisão cristã e transformação social (pp. 57-80) e de autoria do Mauricio José Silva Cunha. O quarto texto, Abraham Kuyper: um modelo de transformação integral (pp. 81-122), é do Nilson Moutinho dos Santos. O quinto texto, O dualismo natureza/graça e a influência do humanismo secular no pensamento social cristão (pp. 123-173), é do Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho. O sexto texto, Da possibilidade de uma ética cristã, e da impossibilidade de qualquer outra ética (pp. 175-187), é do Marcel Lins Camargo. O sétimo, Sociedade, justiça e política na filosofia de cosmovisão cristã: uma introdução ao pensamento social de Herman Dooyeweerd (pp. 189-217), também é do Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho. Já o oitavo, Nicholas Wolterstorff e a ética social do calvinismo holandês (pp. 219-235), é do Luiz Roberto França de Mattos. E o último texto, A teologia política da missão integral no Brasil e a filosofia social reformacional: aproximações (pp. 237-276), também é do Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho.
Todo posicionamento mais a esquerda parece ofensivo à cosmovisão cristã proposta aqui. Pareceu-nos uma falácia a tentativa de fugir tanto do socialismo como do liberalismo e cogitar algo como um "centrismo cristão" ou uma nova democracia cristã - só pode ser uma piada de mal gosto. Os autores deveriam falar sobre a recorrente criminalização dos movimentos sociais no Brasil e a conivência da maioria dos evangélicos, a luta dos sem-terra, dos sem-teto, das pessoas em situação de rua, profissionais do sexo, dependentes químicos, deficientes físicos, catadores de materiais recicláveis, trabalhadores explorados, desempregados e jovens em busca do primeiro emprego, moradores de áreas de risco, homossexuais, afro-descendentes, comunidades indígenas, comunidades quilombolas, imigrantes explorados etc. Uma outra cosmovisão cristã ainda é necessária.



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