Janeiro 24, 2011

Ainda estamos distantes de Angola

BARRETO, José de Jesus. Cacimbo: uma experiência em Angola. Salvador: Solisluna, 2010, 96pp.

Cacimbo é o estio angolano.
Vai de maio a setembro.
Não chove em Luanda.
O tempo é frio, o ar é seco, o céu escuro.
Uma poeira cinza-amarronzada cobre tudo.
Impregna nas coisas, na pele, nas folhas, na alma forasteira.

Em angolês, cacimbo pronuncia-se caximbo.

Este livro, escrito primeiro a caneta e papel,
são textos livres de um jovem ancião baiano que, por tarefa de ofício,
sobreviveu um mês na capital angolana, querente.

São baianices.
Olhar e sentir diários, pelos vãos da rotina da labuta. (p. 13)

José de Jesus Barreto é baiano de Salvador, jornalista e professor de História. Neste livro ele conta, na linguagem de um "jornalismo-literário tipicamente baiano", suas experiências em Luanda durante um mês. Ele tentou traçar um paralelo entre Luanda e Salvador, ao que tudo indica decepcionou-se um pouco com a capital angolana:

Salvador talvez preserve aspectos mais africanos do que Luanda,
observando-se heranças culturais...
traços de cultos, crenças e magias.

A colonização branca europeia, a globalização,
o pragmatismo ideológico, o poder do dólar
e a penetração de doutrinas fundamentalistas
vêm apagando da terra e da alma angolanas
muitos signos dos mistérios, ancestrais saberes
da mais profunda raiz africana.

Aqui, parece, ninguém mais conhece
os inquices, o significado do feitiço...
do Axé tão preservado nos baianos canzuás,
santuários dos cantos d'Angola,
pelas nenguas e tatás
que cuidam ainda hoje das demandas
com antigas mandingas
herdadas de Aruanda. (p. 38)

Parece que o autor buscava as raízes de sua própria espiritualidade afro-brasileira e encontrou uma capital cheia de canteiros de obras, de um país em reconstrução e ainda cheio de contrastes sociais etc. Eu lembro da decepção de alguns angolanos evangélicos com a visita de um pastor neopentecostal brasileiro à Angola, porque em sua pregação ele demonstrou ter uma visão extremamente estereotipada daquele país e do continente africano, supostamente seriam apenas possuidores de "feitiçaria" e miséria. Talvez os angolanos conheçam mais o Brasil do que os brasileiros Angola.

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