
BARRETO, José de Jesus. Cacimbo: uma experiência em Angola. Salvador: Solisluna, 2010, 96pp.
Cacimbo é o estio angolano.Vai de maio a setembro.Não chove em Luanda.O tempo é frio, o ar é seco, o céu escuro.Uma poeira cinza-amarronzada cobre tudo.Impregna nas coisas, na pele, nas folhas, na alma forasteira.Em angolês, cacimbo pronuncia-se caximbo.Este livro, escrito primeiro a caneta e papel,são textos livres de um jovem ancião baiano que, por tarefa de ofício,sobreviveu um mês na capital angolana, querente.São baianices.Olhar e sentir diários, pelos vãos da rotina da labuta. (p. 13)
José de Jesus Barreto é baiano de Salvador, jornalista e professor de História. Neste livro ele conta, na linguagem de um "jornalismo-literário tipicamente baiano", suas experiências em Luanda durante um mês. Ele tentou traçar um paralelo entre Luanda e Salvador, ao que tudo indica decepcionou-se um pouco com a capital angolana:
Salvador talvez preserve aspectos mais africanos do que Luanda,observando-se heranças culturais...traços de cultos, crenças e magias.A colonização branca europeia, a globalização,o pragmatismo ideológico, o poder do dólare a penetração de doutrinas fundamentalistasvêm apagando da terra e da alma angolanasmuitos signos dos mistérios, ancestrais saberesda mais profunda raiz africana.Aqui, parece, ninguém mais conheceos inquices, o significado do feitiço...do Axé tão preservado nos baianos canzuás,santuários dos cantos d'Angola,pelas nenguas e tatásque cuidam ainda hoje das demandascom antigas mandingasherdadas de Aruanda. (p. 38)

Parece que o autor buscava as raízes de sua própria espiritualidade afro-brasileira e encontrou uma capital cheia de canteiros de obras, de um país em reconstrução e ainda cheio de contrastes sociais etc. Eu lembro da decepção de alguns angolanos evangélicos com a visita de um pastor neopentecostal brasileiro à Angola, porque em sua pregação ele demonstrou ter uma visão extremamente estereotipada daquele país e do continente africano, supostamente seriam apenas possuidores de "feitiçaria" e miséria. Talvez os angolanos conheçam mais o Brasil do que os brasileiros Angola.




0 comentários:
Postar um comentário